domingo, fevereiro 03, 2008

Eu visto as pessoas. Ninguém nunca percebeu, mas eu não sou completa. Eu, em verdade, sou nua. Ando nua pelas ruas e ninguém nota. Eu só me visto quando entro em alguém. E ninguém nota. Eu entro e me torno você, ele, ela. Eu vou vivendo o que todo mundo vive. Eu vou sentindo o que todo mundo sente. E quando vocês acabam eu fico nua, só com as recordações.
Quando eu me tornei vocês? Quando foi que eu deixei de viver a mim pra viver vocês? Me diz, alguém, por favor, como foi que eu desaprendi a me vestir?

Se vocês tivessem alguma coisa pra me dar. Se vocês tivessem me vestido com abraço, com beijo, com qualquer coisa envolvente. Mas eu fui caminhando nua, tremendo, sentindo frio, humilhação. Não é fácil ser nua quando mundo está vestido. Por fora.

Aí eu entrei em cada um de vocês; e me vi caminhar. Com teus olhos, com tuas mãos. Vendo como cada um me via. Dói.

Eu senti o que cada um sentia quando me encontrava. Dói.

E eu desisti de vestir vocês. Porque eu dava meus dias para viver os seus. Fui embora nua, sem roupa, sem sombra, sem sentido. Achando de mim o que eu achava, e num ato quase louco, me abraçando pra ver se em algum momento me sentia confortada.

eu cai.

enrolada na escuridão.

3 comentários:

B disse...

Impressionante a pureza do sentimento colocado. Tão puro e fino q chega a ser afiado, e corta, e a dor tbm dói na gente. Acredite, dói machucar. Dói te deixar cair.

Dói.

muito bom mesmo linda!

bjos

Carolina disse...

Sabe quando alguém diz tudo aquilo que vc sente mas nunca soube explicar. Pois é. Adorei!

Eu me visto das pessoas e no fim nunca sei quem sou...
Isso me lembrou de uma coisinha que vi por ai: é difícil ser vidraça quando a maioria insiste em ser pedra.

Lindo, lindo.

Bjo

Guto Leite disse...

Parceira,
não sei se noto tua nudez, mas decerto me aflijo por certo constrangimento que percebo. Teu verbo transpassa o preço! Maravilha!