segunda-feira, abril 11, 2011

quase tudo

Uma vez, enquanto escorria água quente pelas minhas costas e eu decidia qual shampoo usaria naquela noite, tive uma epifania tão clara e lúcida que parecia explicar todo o universo: banho cura tudo. E, de fato, cura muita coisa. Dentre as sabedorias populares que mais me agradam, a de que banho alivia mal estar tem pontos garantidos no meu rol de conselhos inúteis em momentos inoportunos. Banho cura bebedeira, como também cura ressaca. A temperatura é que nunca é a mesma. Banho conforta, quando se tem que buscar algum tipo de calor imediato e deliciosamente silencioso. Banho parece conseguir esmagar toda aquela sensação de imundície depois de pegar seis ônibus em um dia ou de conversar muito com pessoas pouco sinceras; aliás, falsidade é umas coisas que a minha bucha vegetal anda espantando com frequência.
Banho lava a cara e o cabelo da gente, limpa as costas da grama que a gente deita e do peso que a gente carrega: por quinze minutos (e a água do mundo agradece que sejam não mais que quinze) o mundo se resume a deixar ir pelo ralo o máximo de coisas possíveis, destas que impregnam com facilidade e causam asco a metros de distância. Elenco: coco de passarinho, banco de praça, inveja, giz de lousa, raiva, desrespeito, chuva e suor.
Dos poucos rituais que eu sigo, o banho é, de longe, o meu predileto: estabeleço ordens das coisas que vou usar para depois ter a alegria de invertê-las, mudá-las e sorrir para minha própria cara no espelho anuviado: eu gosto de banhos quentes e eles gostam de mim. E é assim, por meio de nuvens que duram menos de cinco minutos, que eu prefiro meu rosto; não tendo certeza de quem estou vendo. Porque, em verdade, banho cura tudo, mas não lava e nem escorre a verdade: no fim  gente nunca fica limpo o suficiente.

terça-feira, fevereiro 15, 2011

Discurso Formatura Letras, turma 07

Pessoal, teve muita gente - muito fofa e querida - que veio pedir para ler meu discurso. Para matar a curiosidade de quem lá não esteve ou para deixar claro o que eu disse para quem não entendeu graças ao meu r retroflexo ou meu choro, ai vai. Foi muito importante pra mim ter sido oradora dessa turma. Valeu, pessoal.



Prezados familiares, professores e formandos: Boa noite.
Lembro-me bem da primeira vez que entrei na Unicamp, vinda de Batatais e perguntei ao meu amigo também batataense que estudava aqui há um ano: Aonde acaba a Unicamp? Ele riu e eu não entendi. Segui perguntando e apontando para rua atrás do IEL: é ali que termina? Ele riu de novo e disse que bixo era mesmo burro. Eu acatei.
Quatro anos se passaram. Eu, que havia entrado Marcella me transformei em Rosa e vi uma turma inteira mudar completamente. Alguns não sabiam que o Kafka não era um professor, e hoje são professores com os quais eu gostaria de ter aula – não de literatura.  Outros falaram que a professora tinha Alzeihmer e agora sofrem a difícil tarefa de ter memória de professor. Eu lembro de uma delas que disse que ninguém naquela sala era seu amigo. Eu tenho certeza que agora está chorando sentindo falta de todos eles. Teve aluno até que achou que Napoleão tirava foto. Tudo bem, para esse caso eu não tenho desculpa, contudo, o que salta aos olhos é que a nossa sala, tão discrepante e tão misturada, nunca tinha sido exemplo de união e mudou tantas e inúmeras vezes que hoje arrisco dizer que sempre foi unida, sem perceber.
Vocês, queridos colegas, lembram a loucura que foi a aula sobre Biblioteca de Babel, não é? Quantos hexágonos, galerias, e livros irremediavelmente diferentes. Como nos parecemos com eles. Desde a uniformidade aparente que esconde, quando olhados de longe, as tantas diferenças gritantes que temos até a eternidade que mantém vivo o cenário: a biblioteca existe ab eterno. O motivo que une trinta e poucos alunos de no máximo 20 anos a continuar ali também é eterno: a paixão e uma tremenda coragem de fazer letras.
Eu sei que aqui todo mundo sabe do preconceito que a humanas carrega e o quanto ele parece pesar mais quando se trata de Letras. Licenciatura em português, então. O desaforo com a língua de Pessoa foi fortemente enfrentado por cada um de nós em algum momento. Eu sei, senhores pais, o quanto os senhores queriam que fosse direito, que fosse engenharia e – num sonho ainda mais dourado – medicina. (Como você quis, né, pai?).
Mas, não, insistimos em fazer Letras. E o salário inicial? E o mercado de trabalho? E os estágios? Vocês me perguntam – e a paixão? - eu lhes pergunto de volta. E a paixão, ou a Vindicação, diria o Borges… Não esperávamos marido, como alguns invejosos diziam, e, salvo esquecimento de convite, ninguém aqui casou. Acontece, senhores pais, que todos que aqui vestem essa beca horrível tiveram seu propósito: uns prévios, outros encontrados no caminho. E todos, inevitavelmente, abandonaram o hexágono natal pois buscavam a sua vindicação. Dessa minha afirmação, sequer o Gabriel discordaria.
Hoje me deparo com meus colegas, na sala de aula, em casa, na arcádia ou no bar e vejo que o rosto mudou, os olhos são outros e o jeito de encarar as coisas é completamente diferente. Eu me encho de um orgulho egoísta: meus colegas são excelentes profissionais. Neurolinguistas, latinistas, professores de português, professores de inglês, corretores, atrizes, bailarinas, publicitários e – por que não? – teólogos que começaram a ver que o mundo não é nada fácil quando a gente atravessa a rua que vem depois do IEL.
A nossa Biblioteca de Babel tem um infinito muito pior, os nossos livros em estantes imensas nunca serão classificáveis. Fazemos parte de uma massa de pessoas que, sabe-se lá porque, ainda acha que vale a pena ensinar alguma coisa. E muito antes das propagandas eleitorais tentarem convencer       que ser professor era supremo e magnífico.
Penso de novo nos meus colegas. Alguns nobremente ainda querem ser professores, outros não. Fico orgulhosa dos dois: seja daqueles que dão a cara a tapa para um mundo que é muito mais difícil sem licenciatura ou aqueles que honram as aulas de L.A e enfrentam salas de aula, com respeito pelo ensino. Tenho grandes amigas que preferiram estudar latim, mas eu as perdoo mesmo assim. O curso de letras me ensinou a respeitar as loucuras. E vindicações são tão particulares e utópicas quanto é possível ser.
Olho ao meu lado e não vejo mais carinha de criança, vejo meus amigos, meus colegas de profissão e mais uma vez eu não me preocupo: eles sabem para onde ir e como ir. Não tenho certeza se foram as antologias e os estágios ou se foi a coragem de escolher Letras que me garantiram essa certeza: eles serão ótimos e eu vou aplaudir a cada um deles. Vocês também, senhores pais, quantos de vocês que tinham medo da escolha dos filhos agora seguram o grito e o choro de emoção? Vocês estão tão orgulhosos quanto eu, não é? E você, Pai, eu sei que você sempre soube que eu deveria ter feito letras.
No fim, (e isso eu também aprendi no curso de Letras) Borges sempre tem razão: o paraíso deve ser uma biblioteca. E nós, livros começando a ser escritos, precisamos chegar lá o mais rápido possível.
Queridos colegas, foi um prazer estar ao lado de vocês,  e não se esqueçam que a nossa vitória começou no primeiro ano e segue com cada um de nós. É, Junot, você sempre teve razão: a unicamp não termina logo ali.


sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Clementine

Meus textos não citam nome, não são diretos  Mas eu sei que quem os lê, me lê. E quem me conhece quase escuta o grito da pessoa a quem descrevo e chamo, na minha voz, rouca e grossa. Senti algumas vezes que o anonimato das minhas paixões salvaria a minha literatura. Besteira, descobri em 4 anos de graduação que eu não sei o que é literatura e que o que eu faço está mais próximo da merda do que de qualquer outra coisa. Então, desvelei tudo. Escancarei meus sentimentos e o meu tesão em forma de letras pouco ou mal combinadas. Foi assim que você me conheceu, não é. Essa pessoa de palavras, boca, (pernas às vezes) escancaradas e que só repetiram seu nome até que você ouvisse meu chamado. Faz um ano e meio que as minhas palavras tortas tomaram o primeiro rumo certo e eu consegui tirar os dedos do teclado e colocar nos seus olhos, na sua barba, nas suas mãos. Eu amei você pela minha literatura, eu amo você pela suas palavras e hoje eu te amo por todas as formas de arte que conseguimos produzir juntos, mal feitas em sua maioria. Bonitas, às vezes. Eternas ou não. Porque você sabe que eu nunca te prometi amor eterno. Não sou do tipo que consegue esse tipo de façanha. Mas eu te prometo calor todos os dias que valerem a pena estarmos lado a lado, paixão no que eu fizer e respeito mal educado pelo homem que eu amo, se não eternamente, infinitamente. E no fundo eu sei que, seja qual for nosso destino, sou igualzinha aquela personagem de casaco laranja e calcinhas coloridas que não consegui esquecer, mesmo quando deseja. Amor, amor, amor, cada dia a mais do seu lado eu sou menos arrogante, menos idiota e mais parecida com o homem que mudou a minha vida.

sábado, janeiro 29, 2011

Fios



Vivo perdida nos meus fios. Eles se enroscam sem pudor nenhum: carregador de celular, de lap top, usb da câmera, usb do mp3, o fio da máquina de depilação, o meu fio condutor. Eu deixo, assumo: nunca me preocupo em separá-los a não ser que seja estritamente necessário (transportá-los, por exemplo. Até nesses casos levo-os junto, como fossem um só). Dei-me bem a vida inteira com meus fios assim, bagunçados e achando que não precisariam necessariamente estar retos para que estivessem bem. Voltas, espirais, contornos sempre fizeram parte dos meus fios e nenhum deles nunca se queixou. Quase todos são pretos, mas nem por isso deixavam de se enroscar com os brancos, beges e cinzas que vez ou outra apareciam: nunca renegaram um remendado. Assim convivi 21 anos com a bagunça dos meus fios, ignorando qualquer ser humano dito coerente que quisesse separá-los e guardá-los. Era o cúmulo do egoísmo, enrolar um fio em si próprio, isolando-o, e guardando, assim sozinho, na gaveta. Hoje, porque disseram que eu sou adulta e que cresci, resolvi separar meus fios: achei que podia ser mais organizada, tomar mais cuidado: ledo engano. Meus fios nunca se separam, gostam de ficar assim grudados, assim confusos. Feito um camaleão, já que a mistura deles era de onde vinha a força para enganar, fazendo-os fortes e grandes. União e não bagunça. Insisti, sou burra. Separei o primeiro, endireitei o segundo, e na tentativa de soltar o terceiro - mais fino e dependente, o do fone de ouvido - rasguei, rompi, cortei o fio. Não me perdoei. Eu precisei de 21 anos para aprender que fios não se separam jamais e que é na sua própria bagunça que eles se entendem, igualzinho a nós todos, perdidos e enroscados.Idêntico aos fios ao meu cabelo e tal qual a minha vida que na confusão se resolve, não adiantando eu tentar separar antes as coisas. Mea Culpa, perdi o fio do fone e o fio da meada: passei horas a fio me remoendo.

domingo, dezembro 26, 2010

mulher no fim do ano, mulher no fim do mês.

Mulher é de Lua, mulher ninguém entende. Eu tô cansada de ter que me assumir como mau humorada para que entendam que eu não tenho a menor paciência para a grande maioria das coisas. Mas tem dia que é pior, e não é só (mas pode ser) tpm. Tem dia, tenho a impressão, que eu acordo com os olhos mais abertos e noto que meu amigo genial fez merda, que minha mãe, tão doce, está azeda, que a cerveja não desce, e que meu namorado não tem um gosto tão diferente assim do da maioria dos homens. E que por mais que eu seja inteligente, às vezes eu preferia ser gostosa. Tem dia que, pelo contrário, eu acho tudo uma maravilha e irrito as pessoas com meu bom humor inabalável. Disseram que eu sou multipolar, mas eu acho que eu só sou mulher. Dessas mulheres que fazem uma semana de regime e estragam tudo com três dias de bebedeiras seguidas com os amigos. Dessas mulheres independentes de uma nova geração, tão livre, tão descolada que se sobrecarrega de tanta coisa e esquece de cuidar de si e maldiz, uma vez ou outra, a própria independência e liberdade. É fim de ano e toda mulher faz pelo menos uma resolução de ano novo. Eu fiz a minha: vou cuidar de mim e não dos meus três empregos, ou do mestrado, ou da amiga que tem um primo cujo vizinho perdeu a perna. Mulher acha que consegue cuidar de tudo. Eu sei, moro com cinco mulheres e, não bastassem os muitos problemas que cada uma tem, ficamos todas uma querendo salvar a outra e não percebendo que, se cada uma se cuidasse seríamos mais tranquilas. Mas menos parecidas com nós mesmas, não é? Porque, no fundo, por mais que a gente faça resolução de cuidar de si mesma, e passar creme no olho e malhar e se amar mais, a gente só se reconheço no abraço da amiga, nas calorias que a gente consome pra tomar uma cerveja com o amigo do primo do vizinho que terminou com a namorada, ou pra fazer uma jantarzinho gostoso pro namorado, mesmo sabendo que ele não engorda e você engordará pelos dois. Depois, pode ser, que seu amigo não te faça companhia se o primo do seu vizinho tiver terminado o namoro. Depois, pode ser, que seu namorado não se canse de achar meninas magérrimas bonitas, mesmo dizendo que você tá bem assim. Depois, pode ser, que você precise de um quarto ou quinto emprego. Mas tudo bem, porque você é mulher, multipolar e suporta tudo, com uma amiga, uma cerveja e todas as calorias que essa combinação acarreta. Vai abraçar o mundo, mulher. E no fim do próximo ano, vê se resolve cuidar mais de você...

quinta-feira, outubro 14, 2010

Eu choro muito, mas nem sempre é tristeza. Acho que eu sou filha de uma espécie de inquietação que fere os outros para pode continuar viva. Mas não faço de propósito. Às vezes o meu grito é tão forte e denso que ocupa a minha boca de um jeito que as palavras perdem seu espaço, e acabam saindo pelos olhos, transformadas em palavras líquidas, que não argumentam, mas quase sempre convencem. Às vezes eu fico pensando qual seria o jeito mais fácil de lhe convencer que não, eu não tô brava, eu só preciso que fique claro por ai, o que obscuro permanece aqui dentro. Tenho medo do que você pensa de mim, mais medo tenho que coincida com o que eu penso de mim mesma, que é tão terrível. E, ao mesmo tempo que acho que a distância é o que salva a nossa relação, eu tenho certeza de que longe de você é mais difícil trocar grito por palavras, palavras por lágrimas e lágrimas por desespero. Eu sei que lhe incomoda, mas eu preciso incomodar para sentir que eu continuo viva. Você me quer tranquila, me deseja paz e não percebe que é desse desespero que eu sou feita e que é nele, e só nele, que eu me identifico. Eu preciso transformar tudo que eu puder em palavra e as palavras em lágrimas para fazer algum sentido estar aqui, com você, com eles, com todo mundo.Se não fosse o desespero o mundo poderia continuar existendo sem a gente, você não entende? Se não fosse o desespero, eu diria tchau e não voltaria mais para o único lugar em que eu me sinto mais profundamente eu: ao seu lado.

segunda-feira, setembro 13, 2010

É como se eu estivesse presa em mim mesma, conseguindo tocar  as quatro paredes que me cercam. Eu toco, mas não quebro: nem as paredes, nem a expectativa. O máximo que se destrói dentro de mim são os meus pulsos, esmurrando com uma frequência quase musical essa parede que me lembra o seu abraço, quase intocável e totalmente indestrutível. Eu ainda me incomodo muito com as minhas próprias unhas quando eu fecho as mãos, tentando segurar o que já não vejo. As unhas são as partes de mim que mais me identificam: assim escuras e longas elas prometem uma força que eu não tenho, mas que eu finjo muito bem. 

quarta-feira, julho 21, 2010

saudade

Você era a única da família que falava árabe tão bem quanto português e conseguia reunir o que tinha de melhor nos dois países…Faz um ano já que você partiu, eu queria tanto saber quando falar de você vai me doer menos. No fundo, fico pensando que eu não quero que doa menos, porque eu tenho medo de te esquecer. Antes de você ir embora, você já não tava aqui, eu sei, mas a ter a possibilidade de ainda te ver, a saudade de um tempo que voltaria é muito mais suportável e doce que essa distância intransponível. Eu uso seu perfume, eu não quero esquecer nunca seu cheiro e me prendo na certeza que vou te encontrar mais uma vez, em algum lugar onde o cheiro não importará mais. Foram poucas as vezes que estive contigo se comparadas ao amor que ainda sinto por você. Eu te reconheço em outros gestos e vejo a sua mão quando olha para as mãos da minha mãe. Eu hoje sinto saudade de você olhando para os outros: outras avós que não tem o seu abraço Eu queria ser mais parecida com você, infelizmente não nasci nem com seus olhos, nem com seu jeito de acalmar tudo, de fazer cafuné e de dar boa noite. A saudade que eu sinto me faz ter mais medo de continuar vivendo, mais medo de perder outras pessoas como eu te perdi. Arrependo-me tanto de não ter escrito mais cartas enquanto era apenas um mar, e não uma certeza – a da morte – que nos separava. Às vezes fico fingindo que você vai voltar, sabe? Queria te escrever um livro, dizendo tudo que eu senti e não disse. Eu chorava toda vez que você ia embora, e hoje tenho a impressão que nunca chorei o suficiente em cada partida sua. Eu poderia não ter escrito isso e você teria lido, porque eu sei que você tá do meu lado, sorrindo desconfiada do meu projeto de mestrado nada católico. Eu não sou brasileira nem libanesa, eu sou esse misto que me faz tão sua neta que até assim, de tão longe, você me reconheceria e sentiria um orgulho no jeito que eu escrevo ao contrário um alfabeto que para nós duas, e só pra nós duas, já nasceu meio torto.

quarta-feira, julho 07, 2010

Você teve um dia de merda e tudo deu errado. Clonaram seu cartão, sua aula foi um porre, você não tem nem um centavo na carteira. Tudo bem, pensando bem em dois dias você vai vê-lo e tudo fica bem de novo. Mas hoje, justo hoje, você teve que andar a mesma merda de caminho três vezes porque a burocracia não acabava, não conseguiu estudar e teve cólica. Você queria uma cerveja e um abraço, mas você não pode beber porque dói, e tua cama continua vazia. O dia não acabou e ainda faltam dois dias para que você ache os braços que tanto procura. Você só queria que o dia acabasse. Era inverno, porra, por que esse sol queimando suas costas que doem porque a mochila ta pesada com a compra da semana. Mas o dia se arrastava, sua aula não tinha nem começado e você ja tava pedindo arrego. A aula durou um curso inteiro e seus amigos te chamaram pra ir pro bar. Você foi como quem nada tem a fazer além de tentar sorrir: nem álcool, nem ele. Fazer o que ali?
Volta para casa e come, é a única serotonina que te resta pra hoje. Sua anta, colocou molho de tomate na comida, atacou a gastrite. Ok, vai jogar baralho para distrair a cabeça. Mas você ainda ta pensando nele. Azar no jogo, perdeu as três quedas. Você continua cansada e manda todo mundo embora pra dormir. dor dor dor, vai deitar, que o dia já acabou. O dia já acabou e o outro dia chegou, e você nem notou. Um dia que não se parece, nem um pouco com os outros dias. Falta só um dia para você ver quem faz aniversário hoje, um dia para voltar a fazer sentido o resto das coisas que não combinam com seu dia a dia. Falta um dia, você aguenta, eu sei. A saudade é que não...

domingo, março 14, 2010

minhas linhas, seus desenhos.

eu vou seguir guardando todos os seus desenhos. Todos. até aquele que você disse para eu não levar a sério. cada desenho que eu guardar, um pouco do que você tem de melhor fica comigo: um descarrego de cores e formas que saem pelas pontas do seu dedo e esvaziam sua cabeça, do jeito que você precisa.
eu guardo seus desenhos como uma espécie de masoquismo assustadoramente doce, porque eu sei que eu nunca vou ter a formas e nem as cores certas de um bom desenho e nem como folha de papel em braco eu sirvo, nasci assim, meio parda e manchada por algumas saudades de outras vidas não-vividas. Sabido disso, eu sigo guardando seus desenhos como forma de lembrar que você sabe, como um verdadeiro artista, redesenhar linhas e transformar qualquer flor murcha em uma verdadeira obra de arte

quarta-feira, março 10, 2010

Meu pedido de desculpas...

Queridos (poucos) leitores desse blog,

Eu venho pedir desculpa por tirar a possibilidade de publicar como "anônimo" nesse blog. Eu sei que muitos dos comentários lindos e mais recorrentes viam de pessoas que só escreviam o nome - real ou não. Eu adoro tudo, de coração. E me emociono toda vez que vejo totais desconhecidos em sintonia com o que eu escrevo e partilhando as mesmas sensações.
Entretanto, alguém com muito tempo livre (e com extrema falta de sexo) tem me ameaçado constantemente fazendo uso dessa opção. Aos outros, que nada tem com isso, meu pedido de desculpas.

Um beijo vermelho,

Rosa.

quinta-feira, fevereiro 25, 2010



E você que não quer mais sofrer divide sua vida em contos. E assim, todos os dias você vai ter a graça do começar de novo e o êxtase do fim. Nem todos os contos são bons, nem todos os finais surpreendentes. Nem todos a gente quer que acabe…
Às vezes virar a página dói, porque muda a história, muda o enredo, mudam os personagens. Noutras vezes te alivia…Você não podia mais entrar tão fundo naquela história.
A única coisa que um conto tem em comum com outro é ser curto. Facilitando a sua vida e deixando por aí pequenos prazeres e pequenas dores. Nenhum conto é longo o suficiente para te envolver mais  do que três lágrimas e alguns beijos esquecidos. Ela que não queria mais sofrer decidiu dividir a vida em contos, achou que assim daria certo. Ela, que não queria mais sofrer, notou que sua vida estava divididas em capítulos de um mesmo romance em que ela odiava ser protagonista.

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

A gente sempre tem dois caminhos

Maria cresceu muito antes das amigas da turma. Menstruou muito antes que as colegas e aos doze anos já sabia abotoar o soutien nas costas. Não gostava de matemática, mas tirava a nota mais alta porque tinha escolhido ser a melhor aluna. Diferente das outras que ainda não tinham peito, escolheu que não gostava de se sentir presa. E assim, quando todo mundo já tinha soutien, Maria decidiu que não ia mais usar. A gente sempre tem dois caminhos e para alguns é muito mais fácil escolher o mais difícil. Maria, míope, não conseguiu ver que tinha dois caminhos e além de ser mais fácil foi inevitável escolher o mais difícil. No caminho mais difícil as regras eram fáceis: nunca esconder o que sente e sempre dizer a verdade. O caminho difícil, em sua facilidade, era o cruzamento mais forte da dor e do prazer. Para Maria, então, dor e prazer necessariamente andariam juntos. E quando, por acaso do destino, se separassem, a dor perceberia que havia se perdido do prazer e viria logo em seguida procurá-lo, avisando pra Maria e para o resto do mundo que um não fica sem o outro. No caminho difícil outrora escolhido a gente não pode mais voltar atrás e reencontrar o caminho fácil. Primeiro, porque a dificuldade do caminho difícil é justamente não ter atalho. Segundo, porque há qualquer coisa de viciante em optar pelo caminho difícil. Maria ainda não sabe se é o prazer ou é a dor. Talvez sejam os dois. Hoje ela entende: a gente sempre tem dois caminhos, mas só uma escolha.

domingo, fevereiro 21, 2010

Deitada ali só pensava em três coisas: que precisava descansar; que aquele cochilo tinha tempo limitado e que logo mais ia anoitecer. E de noite tudo fica diferente…
Conforme o sol descia e o céu azul ia mudando de tom, seu corpo em posição fetal ia se contorcendo, como se conforme o calor do sol diminuísse, seu corpo procurasse a única coisa passível de abraço naquele lugar: ele mesmo.
Assim, agarrou suas próprias pernas e dormiu com os olhos voltados para o joelho. Se aqueles olhos, que funcionavam como um oásis no deserto de olheiras, abrissem teriam como primeira vista a cicatriz do joelho da garota arteira que um ela dia tinha sido e da mulher exausta que, naquele momento, precisava de um cochilo, ainda que limitado.  A cicatriz insistia em lembrá-la da verdade que ela teimava em esquecer: que não só para o sol o tempo passa e o calor, necessariamente, diminui.
Entretanto, diferente do sol, ela não encontrava naqueles travesseiros nenhum consolo macio que lembrasse alguma nuvem. Nada a rodeava além do sono e do cansaço premeditado e típico dessa infeliz espécie humana que insiste em dormir pensando na hora de acordar.
Acordaria, evidentemente. Provavelmente com frio, certamente sem voz, enrolada com um pouco de dor nos próprios braços que também diferentes dos raios do sol não alcançavam muito mais que ela mesma…

terça-feira, fevereiro 16, 2010

É verdade que tem hora que cai bem o desrespeito. Cai bem porque ofende menos que o silêncio e incomoda tanto quanto a sua cara fitando a minha, dizendo: "minha cara..." e não sabendo, no fundo, o que queria dizer. Eu prefiro o desrespeito gritado em surdas palavras do que meias palavras que tendem a palavra alguma. É do desrespeito que as verdades se alimentam e verdade precisa, no fim, de força para acreditar-se verdade e atravessar o meu corpo para sair da minha boca. Eu alimento as minhas verdades diariamente. Eu as deixo fortes e prontas para superar qualquer ponta de insegurança que me desça goela abaixo. Elas sobem sobre tudo e deslizam pela minha língua lado a lado ao meu último gole de cerveja. Bebo verdades para depois vomitá-las. E eu sei que no fim elas são mãe e pai do meu desrespeito e filhas perdidas da minha vontade.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Assim, de papel.

Ser humano é uma folha de papel branca. A gente tem que sair por ai escrevendo nas pessoas; as pessoas. Tem gente que não sabe ser folha de papel, se fecha em capas limpas e não deixa ninguém encostar a caneta: gente que não gosta de ser história. Tem gente que prefere ser bloco de nota, tudo passageiro, tudo supérfluo, tudo para avisar, lembrar mas sem deixar memória. Eu escolhi ser só uma folha branca, solta. A mais branca que eu pudesse ser. Dessas que voam por aí em forma de aviãozinho e acabam sendo rabiscadas enquanto alguém fala no telefone. Gente tem que se deixar escrever, para nascer mais um livro nessa biblioteca torta e infinita que é a vida. A gente encontra por ai gente que é gibi, vive pequenas cenas, lindas e coloridas sem nenhuma trama complexa. Eu, no fundo, só fujo de quem foge da realidade de folha de papel e se espreme, espreme, espreme até virar uma bolinha. Pimba: com elas a gente faz uma cesta no lixo, com direito a comemoração. Tem gente que não quer e nem sabe ser folha. Mas não adianta:  ser humano, no fim, é uma folha de papel branca. Às vezes ela acaba suja, às vezes vira rascunho porém, inevitavelmente, todas são sem pauta, que é para gente poder escrever tudo torto: subindo e descendo as linhas que a gente teima em imaginar.

sexta-feira, janeiro 08, 2010

palavra dói.

Porque palavra, mesmo, tem que doer: sair rasgando os seus lábios, sendo dita com saliva e sangue. Palavra tem que consumir os dedos, coçar a palma da mão e sair, com esse comichão, fazer doer os olhos que lêem. Palavra tem que ser grito e sussuro, verdade e mentira, medo e coragem. Palavra é a única coisa capaz de fazer sentir ciúme, de fazer sentir raiva. Palavra machuca mais que beijo, mais que olhar. Palavra trai e perdoa. Palavra excita muito mais que o teu assopro no meu ouvido, muito mais que suas mãos suadas redesenhando meu corpo. Palavra repele, insinua, palavra mente. Mente, mente, mente. A mãe e o pai da mentira é palavra. O filhos da verdade também são palavras. Palavra não protege ninguém, não respeita nenhum sorriso, vem trazendo lágrima para tua felicidade. Palavra faz sofrer, dói, dói, tem que doer. Palavra quebra a coisa mais forte desse mundo: o silêncio.

sábado, janeiro 02, 2010

Eu sinto.

Ainda sai de minhas mãos, mesmo enquanto escrevo, o cheiro que tanto me lembra a sua boca quando suja de mim. Pego, hoje, nessa caneta como se segurasse o mundo entre os dedos, de modo que dessa caneta e, portanto, do mundo, pudesse desprender a verdade original, aquele motivo verdadeiramente autêntico: límpido. Há nesse cheiro o segredo da existência: minha, sua e de todos que acabaram afogados nos meus cabelos e perdidos na sua barba. E como se não fosse justo manter o cheiro, a caneta e o mundo só para mim, eu passo as mãos pelo seu nariz e pela sua boca, e peço que assim suas palavras cantadas, sussuradas e repetidas levem esse cheiro para todos que cruzaram por mim, pelas suas pernas e pelas nossas sombras. Da caneta e por isso do mundo sairão as palavras disformes, filhas do nosso cheiro: é assim, e só assim que o mundo pode ser (d)escrito.

segunda-feira, dezembro 28, 2009

Ela carrega entre os seios um segredo que não pode contar pra ninguém. No meio do decote perfumado, fica um pedaço de papel amassado escrito o motivo pelo qual ela hoje está aqui. Quando o tempo esquenta, Ela transpira e transforma esse intervalo entre os seios em um pequeno oásis no qual Ele, ávido, pretende chegar, ultrapassando suas pernas, sua barriga e buscando a primeira gota de água que lhe cabe daquele suor.

Quando Ela cansa de guardar o seu segredo, abre o soutien e o joga bem longe. O pequeno pedaço de papel desprende-se da pele quente e rola: primeiro pelas costelas, depois pela barriga, fazendo uma pequena curva enquanto passa pelo umbigo. O papel segue seu caminho pela sua bacia, pela virilha, pelas coxas, roçando a sua mancha da coxa esquerda, passando pela cicatriz do joelho, pela tatuagem da perna esquerda, pelo peito do pé, pelos dedos; no dedo e no chão.

Quem vê a patética cena fica se perguntando o porquê d’Ela de guardar um segredo assim, sem sete chaves, em um lugar quase exposto ao sol. Ela nunca responde e sorri, redobrando mais uma vez o velho papelzinho, que às vezes fica em forma de pergaminho e outras em forma de envelope, dando-lhe leves cócegas quando, por acaso, encosta-lhe o mamilo.

O pedaço de papel escrito só é lido por Ele, nas noites quase escuras em que ele aparece no quarto dela. O papel é sempre aberto delicadamente, por medo que rasgue, afinal, em teoria, é um segredo. Quando Ele chega, Ela logo tira a blusa abaixando o tronco e oferecendo seios a ele, como a pedir que por favor tirasse do peito dela aquela responsabilidade. E assim o faz. Ele tira o papel, abre e lê despreocupadamente. Amassa e lança longe enquanto segue beijando o pequeno risco que o papel, depois de horas, deixa entre os seios dela. Depois de beijá-La meticulosamente, sobe a sua boca até a altura da boca dela e, em forma de um gemido surdo, pede desculpa por não ter vindo antes e por ter jogado fora seu segredo. Não obstante, lembra-a de mais uma coisa: aquilo, Ele sempre soubera.

sábado, dezembro 26, 2009

Então você cobriu com sonhos, enquanto eu passo frio, daquele frio triste de quem fica acordado sem conseguir dormir por muito tempo . Você me fez trocar o dia pela noite e viver tua realidade no meu momento. Você desculpou o meu cabelo despenteado e sorriu para minha falta de tato. Você me abraçou no escuro e no meio da multidão. Você andou desse lado. Assim, a minha esquerda, tirando qualquer dúvida que aparecesse sobre o meu sorriso, sobre o meu batom, sobre nós dois e medo do mundo. Você me deu calma, flores, fotos. Você apareceu com os seus suspensórios encontrados no meio da rua e me levou para tomar uma cerveja, um banho, um rumo. Você, hoje, me dá saudade, me dá sopa, me dá juízo. Você cansa o meu cansaço e chora a minha tristeza, aprendendo devagar a amar o que eu amo. Há em você (e só em você) alguma razão para eu não voltar para caminhos tortos e escolhas ao acaso, para não cortas mais os cabelos e para nunca mais preferir estar sozinha. Você suspira a minha angústia, perdoa as minhas desculpas. Você é o meu vício secreto, meu mote, meu motivo, por quem eu sento e escrevo. Você me descreve, me despe, me veste de desejo. Você viu que eu sinto medo, às vezes. Você viu que eu não paro, nunca. Você segura a minha mão na tua, e, assim, com você e meus óculos escuros eu encaro o mundo. Você me segura com força na cintura, e assim, com um batom vermelho eu zombo do mundo...
Você é quem a Marcella ama. Você é quem a Rosa respira...