sábado, janeiro 02, 2010

Eu sinto.

Ainda sai de minhas mãos, mesmo enquanto escrevo, o cheiro que tanto me lembra a sua boca quando suja de mim. Pego, hoje, nessa caneta como se segurasse o mundo entre os dedos, de modo que dessa caneta e, portanto, do mundo, pudesse desprender a verdade original, aquele motivo verdadeiramente autêntico: límpido. Há nesse cheiro o segredo da existência: minha, sua e de todos que acabaram afogados nos meus cabelos e perdidos na sua barba. E como se não fosse justo manter o cheiro, a caneta e o mundo só para mim, eu passo as mãos pelo seu nariz e pela sua boca, e peço que assim suas palavras cantadas, sussuradas e repetidas levem esse cheiro para todos que cruzaram por mim, pelas suas pernas e pelas nossas sombras. Da caneta e por isso do mundo sairão as palavras disformes, filhas do nosso cheiro: é assim, e só assim que o mundo pode ser (d)escrito.

3 comentários:

Quincas Borba disse...

Gênia!

Daniela disse...

Sempre me surpreende! Minha escritora favorita... fantástica! beijos e saudades.
Danoninho :o)

Angela disse...

FANTÁSTICO POR FAVOR ESCREVA MAIS DÁ FOME DE TE LER.