Aquela ali sentada sou eu. Dobro as pernas daquele jeito porque me parece confortável, mas as mãos inquietas são a denúncia clara de que eu não estou confortável. Vocês podem claramente perceber que eu estou ansiosa, espero alguma coisa e não suporto essa espera, até porque, como vocês podem ver, o chão no qual estou sentada está bem sujo e me incomoda bastante sujar meu vestido novo, aquele que eu coloquei para dizer que, na verdade, eu não espero mais nada. Eu vou mudar a história, então. Vou embora depois do banho, porque eu faço questão que o cheiro do perfume faça escala entre nós, e arranje morada no nariz dele. É só pra torturar, mesmo, um pouco de vingança na narrativa cor-de-rosa. Ali, sentada, eu me pergunto se não estou sendo sempre injusta, mas a perfeição dele é que dizima com a minha compaixão. Como vocês podem ver, eu ainda seguro nas mãos um livro novo que conta uma nova história, sobre novos lugares. A nova história, entretanto, tem antigos personagens e eu não duvidaria se dissessem que eu apareço ali, só como tradutora de um enredo já contado. Que pena que eu tenho de mim. Minha edição especial trouxe em letras garrafais outro sobrenome, que vai fazê-lo de personagem. Eu me contento, eu juro, em traduzir, se ele quiser eu digo simultaneametnte as palavras da verdadeira autora e repito quantas vezes lhe aprouver. Se ela vai comandar a história, eu prefiro brincar de fábula, e virar uma coruja escondida em algum enredo de sabedoria. Amor não, literatura. Amor não: literatura! Eu só não posso chegar até o final, minha edição é limitada, e meu tempo é curto demais...Vou voltar para um poema concreto, agora.
sexta-feira, dezembro 09, 2011
quarta-feira, novembro 30, 2011
pimenta
Lia, ainda há pouco, com o livro em seu colo enquanto comia um croissant bem duro, quase amanhecido, mas que cabia bem na fome do momento. O sabor que não existia era preenchido pelo molho de pimenta aguado que ela distribuia generosamente sobre o (não) recheio daquele croissant; sabia que ia dar errado e não estranhou quando num descuido de equilibrio (e descuidado havia sido deus que a criara meio torta) pingou uma gota de pimenta no seu livro, tão novinho. Seu primeiro impulso foi passar o dedo por cima, mas deteve-se antes de tocar a folha: espalhar a pimenta seria, então, a solução mais inteligente? Largou o croissant e elevou o livro até altura do nariz.Cheirou a pimenta. Que cheiro bom tem molho de pimenta misturado com literatura. Pensou em lamber o livro, mas tinha gente demais em volta e ninguém ia entender, ou iam e aí podia ser bem pior. Não lambeu, e começou a perceber que o circulo vermelho ia ficando com uma consistência cada vez menos líquida, e que a cor, antes de um vermelho vivo, ia tomando tons de alaranjado, que combinava com o pôr-do-sol tímido que começava a dar as caras. Se fechasse o livro, teria uma belíssima imagem, tipo aquelas borboletas que fazia com um monte de tinta na folha de sulfite dobrada em dois. Tinha perdido tanto tempo e tanta distração que a hora de ir já gritava por ela e a fome se escondera no meio daquelas páginas todas. Como num ato de coragem, passou o dedo sobre a pimenta, tentando espalhar o mínimo possível e antes que a rapidez do olhar de alguém lhe alcançasse, enfiou o dedo da boca. Que delícia que era pimenta com palavra, gostava tanto das duas e nunca tinha pensado na mistura. Passado o gosto, resolveu olhar o caminho que o desenho de pimenta fizera na página; poderia significar um milhão de coisas, ainda mais para alguém que se entrete tanto com apenas uma gota de pimenta, mas não. Acabou só significando uma mancha amarelada (e de amarelo ela não gostava) indicando que algum dedo (e depois, confessa, uma língua) havia passado por ali...
quarta-feira, novembro 23, 2011
Dezessete noites - ela contou - há exatas dezessete noites não se emociona mais, nem desmancha a boca em sorriso quando ouve aquela combinação de notas que anunciavam suas iniciais. Há dezessete noites divide sua cama com outros sonhos, que não os seus; outros desejos, não os dela. Há dezessete noites prefere não acordar com um sorriso, nem dormir misturando aquele tanto de lágrima com mais um tanto de desespero. Há dezessete noites conta os dias que parou de contar e acha muito mais gentil e tranquilo o coração vazio, até um pouco empoeirado desde que você foi embora. Resolveu, há dezessete dias e dezessete noites, que não lhe escreveria. Você ri porque sabe que essa decisão não foi levada a cabo (e nunca poderia ser), mas no fundo, naquele fundo perdido e surrado, você também sabe que as palavras ficaram vazias - e só assim poderiam ser - as palavras acabam inevitavelmente escritas, mas vazias, porque você não a emociona mais.
domingo, novembro 06, 2011
tava ali deitada vendo um programa de super-heróis. A musiquinha do Batman sempre a arrepiou inteira e se pudesse materializar alguém (perdoa ela, Shiryu?) seria ele, definitivamente. Depois da citação do Brecht, da questão psicológica e de toda discussão acerca da aura do herói, a única coisa que podia pensar é que o seu herói predileto não a salvaria de nada, pelo contrário. Acho que ela gosta mesmo é do herói atormentado e politicamente incorreto que o Batman sempre foi, pra terminar de foder com com qualquer sobra de sanidade que ainda tivesse. Ela fica tentando, de um jeito quase ridículo de tão sistemático, entender como é possível pensar tanto em coisas improváveis e ter prazer com seu próprio desespero. Ainda que odiasse ser ansiosa, alimentava a ansiedade como quem engorda um animal para o abate: quando chegasse a hora, lembraria das facas dele e cortaria pedaço por pedaço essa ansiedade e que ela sangrasse o desejo e cozinhasse em fogo brando até o momento em que fosse recolhido em um prato e servido, ainda fervendo, pra si própria. Sacode a cabeça tentando lembrar em que momento esqueceu do Batman e pensou em facas, já que essas nunca foram as suas armas prediletas. Lembrou de imediato o que ligava os dois fatos, pensou nas mãos, no perdido beijo no colo e dormiu, com um sorriso (joker as can be) no rosto.
quinta-feira, novembro 03, 2011
Acho graça quando você me acha especial. Garota classe média, né, tão diferente e tão igual a maioria. Você gosta das minhas tatuagens, mas não nega que aquela, ali no ombro, sempre fica um pouco clichê. Pior só uma frase em Latim. Tão típico da garota de humanas de universidade pública, né. Essa que protesta contra a PM na usp e gasta metade do salário lá na Arezzo (justo a Arezzo, caralho!). Você acha muito firmeza que eu bebo bem mais que você, mas no fundo seu sonho era que eu pedisse uma "Sakerita de morango, bem levinha, tá?" enquanto você, e não eu, se acabaria no chopp. Você diz que não curte mulher magrela e que eu fico linda com as minhas curvas, mas ah, uns 5 kg a menos me deixariam ideal, não é não? Ontem você disse que adora meu batom vermelho, que me deixa sexy e imponente, mas eu me lembro de te ouvir dizer que aquela rosa claro combina mais com a minha pele. Com a minha pele ou com a sua moral? Eu não lembro. Eu mesma às vezes não tenho certeza. Quantas vezes você suspirou pelo meu cabelo cacheado e quantas outras vezes você não quis me contar, mas poxa, uma chapinha me caia tão bem! No fundo você sabe que quando eu vou toda animada e fitness pra academia eu, na verdade, trocaria cada minuto naquela esteira por uma cirurgia que diminuisse a minha bunda. E aquele sorriso fazendo bíceps é só brincadeira, ou devaneio. Tava pensando na janta que eu faria: puxa, como te agrada esse meu lado retrô, cozinheira e boa moça, a professorinha de português. Especialmente quando eu uso o avental com meu vestido curto e você não consegue diferenciar o que, de fato, tapa as minhas pernas, que - a gente sempre soube - você preferia que fossem menos à mostra. Tem dias que você prefere meu lado garota bem sucedida, a estudante de crítica literária, aquela ali, com um blog muito interessante sobre sexualidade. Que você não vai divulgar pros seus amigos, afinal, você não quer ver minha foto de lingerie passeando por ai, oras! Tô cansada de você, bom senso. E de você, decência... Agora eu escuto a música do Chico, droga, por mais que eu discuta as políticas, sempre foram as românticas que me puxaram quase pra dentro da voz rouca dele. Voz rouca, você sabe que eu me desfaria dos meus livros prediletos pra ter uma voz menos rouca, mais aveludada... Mas eu não ia poder dizer que tenho voz tele-sexo, e perderia as piadas de travesti. Você ri da minha cara porque eu me divido entre esse jeito muito prático de mandar as coisas acontecerem e aquele quase infantil de levantar os olhos e pedir, quase implorando, pra você apagar luz. É que às vezes, sabe, eu não quero ver, que no fundo, bem no fundo, eu sou exatamente aquilo que eu planejava ser.
quarta-feira, outubro 26, 2011
sapo
Lembro que aos 13 anos tinha certeza que o homem da minha vida seria aquele que soubesse com extrema precisão a resposta perfeita para a pergunta que explicaria o mundo: você prefere nescau ou toddy? Se com segurança ele me respondesse "pronto, nescauzinho! Se for quente, nescau também. Se for frio, aí toddy. Jamais Muky ou Chocolate do Padre!" eu saberia, então, que estava diante do pai dos meus filhos e do homem que saberia que o meu nescau não pode ficar mais de 1 minuto no microondas - sempre sem açúcar. A vida me ensinaria, a trancos e barrancos, que um homem ideal pode ter intolerância a lactose, e que, às vezes, o nescau facilmente se transforma em flatulência. Ok, idealismo, você fica para lá. Aos 15, meu príncipe não viria em um cavalo branco, mas na sua harley edição comemorativa, vestindo um colete dos ABUTRES enquanto ecoaria ao vento Born To Be Wild, no mesmo momento, a minha saia de pregas xadrez e meu coturno caminhariam firmes em sua direção. Os ABUTRES, no entanto, restringiam seus integrantes a pessoas pelo menos com o triplo da minha idade e que não ficavam tão bem assim de roupa de couro, dada a saliência frontal. - típica da idade e impossível de esconder. Desisti de encontrar o homem perfeito até entrar na faculdade: aos 17 anos, tinha certeza que o homem da minha vida viria com os cabelos e barbas longas falar de marxismo pra mim; aos 18, preferia um neomarxista e especialista em Teoria Crítica, que olharia minha tatuagem e: "PUXA! ADORNO, KANT, HORÁCIO". Seríamos feitos um para o outro. Dispensei os cabelos longos e tudo bem se ele não soubesse a entonação certa de sapere em Latim: a melhor amiga daria conta do recado. Aos 19, queria um italiano que fosse judeu, não encontrei nenhum por aí, mas me contentava com os só italianos e só judeus. Que nunca eram suficientes, pois sempre faltava algo (especialmente no caso dos judeus). Quando completei 20 anos, desisti de encontrar o homem perfeito, porque acabei trombando por um quase perfeito, quase sem querer, e quase sem trombar. Tinha inúmeros defeitos, não tinha tanto cabelo (da barba jamais abri mão!) e uma bicicleta ao invés de harley. Mas de algum jeito tudo dava certo. Até quando não deu mais. Engraçado que nesse dia ele ficou menos quase e mais perfeito. E, hoje, aos 22 anos e alguns meses, descobri que ainda bem que não existe homem perfeito, senão eu perderia metade das piadas, dois blogs e muita conversa na porta da cozinha. Perderia a risada conjunta, e aquela graça infinita que é simplesmente não se apaixonar por ninguém e gostar de todo mundo, ao mesmo tempo e bem imperfeitamente.
segunda-feira, outubro 17, 2011
tantas outras coisas.
Olho, ainda enquanto trabalho, para a nossa foto ali no quadro. Eu poderia pensar em tantas outras coisas, umas tristes, outras não; mas só uma me vem à cabeça ainda: eu sei o que é um homem de verdade. Hoje, não quero saber porque não estamos mais juntos, nem quero sofrer por esse tipo de detalhe que a vida insiste em criar, a felicidade dessa noite é notar o quanto eu soube o que é ser bem tratada. Talvez por isso seja tão difícil olhar para as pessoas e achar gentileza nelas. Sou dessa massa de pessoas que ainda não começou a economizar sorrisos, nem convites. Eu ainda quero a companhia do mundo e se essa companhia vir sorrindo, ótimo. É triste ver que as pessoas não merecem o nosso convite: nem para tomar uma cerveja, nem para entrar na nossa vida (convite esse que já vem embutido lá, naquele sorriso, que eu acho avareza demais economizar).
Mas que mundo mais desconfiado que tem medo do sorriso, do abraço e do convite. Ainda hoje fico abismada com o medo que o compromisso causa nas pessoas, essas mesmas pessoas que mal percebem o quanto são compromissadas com a própria insegurança, com o próprio medo de assumirem que não são, de fato, aquilo que a pessoa que lhes convida imagina (ou quer imaginar, que de sonho e ilusão é que são feitas a maioria das relações).
Esqueço por um instante do homem de verdade e olho para o lado, olho para as mulheres que, de uma maneira ou de outra, fazem parte da minha vida. Quanta mulher incrível eu conheço e quanta dor elas carregam. Acho que só uma mulher é mesmo capaz de sofrer tanto assim, por nada. Não que sejamos bobas (mas somos um pouco), mas porque é de nossa natureza esperar. Nosso lado penélope fia e espera amor, fia e espera saudade, fia e espera respeito, vai ver porque a gente sempre tem, ainda que torto e mal feito, um lado muito delicado, quase botânico: e vencidos os espinhos, a gente quebra fácil. Mas com água e um pouco de luz, a gente sempre reanima e se porta forte, cheirosa, receptiva. Queria pegar essas dores e transformar tudo em óculos mágico que mostrasse, na realidade, o muito pouco que elas perdem...
Quanta dor eu ainda vejo por detalhes tão pequenos, por pessoas tão ruins, por gente que ainda não aprendeu a relação lógica entre gentileza e humanidade. Todo mundo deveria saber como é ser bem tratado, e, mesmo que entre grosserias e maldades, eu vou levantar sempre a bandeira do mimo e do carinho. Não que eu queira de troco o compromisso, mas eu vou esperar sentada a gentileza, em cada relação que eu criar. Vou oferecer mais um gole, vou chamar para mais uma cerveja, vou dizer, aos quatro ventos, o quanto eu quero que essas mulheres se libertem dessa dor e que não economizem batons nas golas do carinho, nem perfume no colo do respeito, e que venham, despudoradas, chorarem ao ombro daquela pessoa que não precisa mais mentir para parecer sincera. E sabe o que mais que eu ia dizer? Que a nossa foto, assim sorrindo, ainda é linda.
quarta-feira, outubro 12, 2011
sapato novo
Olhava para o sapato novo buscando um bom motivo, naquele sapato que ainda machucava seus dedos, para estar assim triste, assim feia. Estava convencida que beleza era questão de estado de espírito, e sabia que as suas olheiras denunciariam se a noite tinha sido molhada por álcool ou por lágrimas. Forçava sorrir, mas nem sempre saia aquele sorriso cheio de dentes. O sorriso meio forçado podia ser facilmente confundido com uma radiografia para o dentista, que criticaria sua mordida. Ela nem ligava, os dentes sempre fizeram bem a sua função e não deixaram qualquer pedaço de carne inteiro, ou pescoço abandonado. Que pena, não era a tristeza que lhe perturbava - se fosse, a certeza de morrer de dor e de amores tiraria do peito o desespero do marasmo. Era um pouco de apatia, de coração vazio. Há muito tempo não se acostumara a sentir o nada. E que coisa sem graça é sentir coisa alguma. Tinha sono, que droga. Deu-lhe saudade da insônia, da dificuldade de dividir seu espaço, da ansiedade do dia seguinte. Não ia acontecer nada no dia seguinte, tudo bem. Tinha bons livros, tinha bons amigos, tinha a sua cerveja. Em algum momento isso tudo junto voltaria a ser furor - que não demorasse, há muito tinha aprendido que sem nós, nenhum eu se diverte.
sábado, outubro 01, 2011
Fecho três vezes os olhos como em um ritual quando quero desviar o pensamento de alguma coisa. As letras horríveis nas folhas marcadas de vermelho me confundem, e o risco que às vezes sai do controle na lateral daquela folha me lembra o seu braço, quase sangrando. Que sorte a dessas pessoas que conseguem manter-se alheias aos prazeres efêmeros. Eu não. Meu sorriso ainda se sustenta por horas depois daqueles dois segundos que sintetizam quase a vida inteira: comer com os olhos sempre foi meu prato predileto. Sinto uma fome quase insuportável, mas fico em dúvida constante de que parte do meu corpo ela vem. A salivação é a mesma. E do mesmo jeito eu tremo, eu me contorço e faço da minha boca caminho direto. Eu sacudo a cabeça, aperto as minhas próprias pernas, respiro fundo. Fecho três vezes os olhos. Não leva mais do que alguns segundos para eu retomar a concentração, empunhar com força a caneta vermelha e continuar rabiscando, pontuando e exigindo.
quarta-feira, setembro 21, 2011
normativa
Não é porque você desvia o olhar no meio da minha explicação e sabe o quanto isso me desconcentra. Antes fosse. Lido bem com improvisações, você sabe. Nunca precisei de texto decorado para saber o que dizer. E eu sempre acerto, né? Nesses casos, quando peco, é inevitavelmente pelo excesso: minha matéria é verborrágica e eu gravo o seu sorriso de prazer quando percebe que eu me dei conta que tô repetindo o mesmo exemplo, a mesma frase. Você é linda, dessas de beleza angelical, quase desenhada: o que eu fico pensando é que engenheiro maldoso e genial construiu essa ruga expressiva (mesmo você sendo tão jovem) que dosa um pouco de gravidade no seu rosto de pura porcelana. Ainda que os seus olhos azuis sejam hábeis o suficiente para percorrerem o meu corpo no tempo de uma conjugação verbal, são as suas mãos que me tiram do sério: não que elas me toquem, não que eu as use como se fossem minhas, mas exclusivamente por elas desenharem no ar, enquanto você faz alguma pergunta, uma espécie de código morse: todos os caminhos me levam pra você. Ok, eu respiro fundo mais uma vez e me convenço de que é tudo ilusão, um pouco mais de literatura nessa minha vida feita em longos e impossíveis parágrafos, mas a verdade é que você, justo você que tinha tudo para ser mais um adjunto, é o sujeito, por quem agora eu suspiro.
domingo, setembro 11, 2011
A reflexão interiorana.
Hoje eu pensei naquela estrada tão repetitiva, mas que coisa, né... Nosso amor foi como uma plantação de cana. Veio, devastou tudo que tinha e se fez presente. E igualzinho plantação de cana, uma hora tudo acabou, e o amor virou um pouco de açúcar e muito álcool. E tal qual plantador, eu deveria queimar o resto, para permitir que uma nova plantação começasse. Acontece que eu não gosto da fumaça...
Meu coração deu dois pulos de alegria com essa piada, e eu ri sozinha, fazendo carinho no vidro da janela.
segunda-feira, agosto 29, 2011
"Ainda bem que eu nunca cheirei", pensou ela enquanto acendia um cigarro, comia um doce e ouvia a mesma música nova do chico. Ainda bem que eu nunca cheirei. Sabia ser dessas pessoas compulsivas e fora o regime e a asma, viveria bem com todos os seus vícios. Com quase todos, aquela dor lhe lembrava. Que delícia que ele era. Que ele foi. É, professora, que dificuldade em conjugar verbos quando se trata muito mais de tato que de papo. Ainda bem que eu nunca cheirei. Morreu de rir de si mesma lembrando que o cheiro dele tinha um que de droga, como tudo naquele menino. Foram anos demais de vício, e o rehab agora era difícil: tentou por doses homeopáticas, mas sempre foi dessa espécie de gente com quem o meio termo não funciona. Ou tudo, ou nada, e sempre acaba com nada, maldizendo essa mania estúpida de preferir aguentar a dor até o fim ao invés de amaciá-la. Enquanto tivesse álcool, amigos, Eu sei que vou te amar e aquela música do Led Zeppellin, ia preferir a dor que, em algum momento, viraria saudade. Não se morre de saudade, mas os vícios corrompem. No manual antidrogas do colégio, ela aprendeu que a maconha levaria ao crack, que era morte certa. Não era verdade, tudo bem, mas talvez funcionasse com outros vícios. Ela lembrou de você, sabe como é: os olhos, a boca, a barriga. Achava graça no próprio choro quando lembrava do seu corpo. Ok, manual antidrogas, você venceu: a mão dele levou à boca, que levou às pernas, à virilha: tudo em combo, quase pior que ópio. Em abstinência, ela tremia, suava, chorava baixo e mordia o lábio. Saciada de você, ela fazia exatamente o mesmo! Você não vai esquecer do jeito meio convulsionado que ela sempre tirou sua roupa, sempre com pressa, sempre com sede. A certeza de que disso você não vai esquecer ainda a consola, enquanto ela enche o seu copo e o dela, para beber os dois.
segunda-feira, agosto 22, 2011
A gente não distingue tristeza de dor quando o choro não sai, fica que nem faca machucando aquela região entre os olhos. Mas as lágrimas não vem. Vem o soluço, a tremedeira, a taquicardia, porém nada de lágrimas. Que porra, às vezes eu queria gozar lágrimas, sabe. Quem sabe assim seria mais fácil provocá-las e jorrá-las, quem sabe assim doía menos guardá-las nessa região maldita entre os olhos, logo abaixo do meu cérebro cansado e acima dos meus olhos secos. Eu tô fodida com o mundo, ofendida com a cara de pau. Vem cá, minha gente filha de uma puta, venham todos e justifiquem essa vontade imensa de transformar em palavrão as lágrimas que vocês levaram de mim. Meu choro vai que nem cachorrinho ao lado dessa sua vagabundice. Não, eu não choro mais diante de tanta sujeira. Conforme sua dignidade se esvai, minha emoção mingua, e quando eu me tornar um nada cansado dessa sujeira toda eu vou virar pó, desses que fazem espirrar e catarrar os alérgicos. Quando essa merda de mundo acabar comigo e com a minha paciência, ai que bom que vai ser meu deus, porque eu vou ser pó, seco, totalmente sem lágrima. Mas igualmente sem dor nessa região tão importante pra mim: no meio do olho, como dói, justo donde ele às vezes me beijava. Então, gente ruim, quando eu virar pó - meu último pedido - vê se me varre, que eu não quero ser mais uma sujeira nessa sala emporcalhada.
segunda-feira, agosto 08, 2011
Portuguesa
Odeio pizza sabor portuguesa, acho que não combina botar ovo e presunto em pizza. Nunca pedimos pizza de portuguesa - mesmo sendo o seu sabor predileto - porque eu odiava. Desde que você foi pra longe (não de mim, mas de nós como um só) não vejo mais graça em pedir comidas. Mesmo que tenha sido eu quem escolhi todos os sabores de tudo que comemos, eu tinha você pra legitimar minha escolha com um sorriso e um "tanto faz pra mim". E tanto fazia, mesmo, eu sei. Mas talvez se alguma vez você tivesse sido menos tanto faz...
Hoje comi pizza de portuguesa, fui coagida por uma mesa inteira. É claro que eu podia ter comido só os pedaços que me cabiam da outra metade do sabor que eu mesma escolhera, mas eu quis comer pizza sabor portuguesa. Por quê? Porque não é tanto faz pra mim, nunca foi. Não, a pizza não tava gostosa e a ervilha tinha gosto de saudade, mas eu comi e por um segundo era como se eu estivesse comendo o que ainda tem de você em mim. Engoli com cerveja, para ver se descia mais fácil.
O garçom perguntou se eu queria mais e a verdade é quem nem para isso eu tinha resposta. Ele desistiu de mim porque eu pensei muito. E por pensar demais que normalmente as pessoas desistem, não é mesmo?
Que triste, eu pensei. Quem sabe um dia seja tanto faz.
domingo, julho 31, 2011
Meet me in Montauk. Pensei nesse filme o dia inteiro, era como se eu soubesse que a gente começava a se perder. Lembro dele como um consolo para essa minha dor insuportável: a gente não pode se esquecer. Há algum lugar nesse mundo horrível em que a gente se reencontra. Finalmente calmo, finalmente bem...e eu vou contar os minutos na minha coruja nova para esse dia chegar. E que chegue leve, sem tantos ferimentos espalhados por ai. Você custou a entrar na minha vida, e eu fui vivendo você em etapas: imagem, voz, corpo e alma. Eu tive paciência, meses a fio. Terei de novo, por mais quantos meses vier. Não que eu tenha uma vontade doida de pedir que você fique, mas, hoje, bem melhor do que aquela que eu era antes de você, eu sei que você precisa ir...
sexta-feira, julho 29, 2011
O tempo passa rápido demais pra todo mundo, mas eu estou certa e garanto que essa velocidade é pior pra mim. Eu acho que eu vivo em velocidade oscilante e que o mundo nunca vai acompanhar. Os paulistanos correm demais no metrô, me incomoda, mas não mais do que a demora da maioria das pessoas em entender um diálogo simples. Cada um tem seu tempo e velocidade é grandeza relativa pra mim, se eu algum dia entendesse física ou se ainda conseguisse paquerar físicos, eu diria a fórmula aqui, de maneira metafórica, só para corroborar meu argumento murcho e essas palavras que fazem pouco sentido pra vocês.
Dou-me com o tempo de maneira única e singular. Que bom, mas que pena. O moço que eu conheci e gostei há anos virou outro, mas ele vive no meu tempo, todo diferente. Prefiro acreditar que o quanto perdi de cabelo nesses anos todos (não só eu, mas todos as minhas jovens paixões também) tenha virado poesia em algum canto: menos fios, mais palavras. No meu mundo de velocidade relativa, meu pai sempre é o mais forte e a minha mãe é a mais linda, ambos com eternos 35 anos, enquanto eu, mais alta que eles, ainda acredito que vão me segurar pelas mãos e pular comigo a cada esquina. Mas eles não me aguentam mais. O tempo, coitado, não me aguenta mais. É claro que os meus fios brancos ainda são charme na minha juventude, mas é que tudo corre tanto e eu sempre fui aquela que preferia não correr, ia com calma, sempre sorrindo. Enquanto minha cabeça não se aguenta quieta, meu corpo para, retarda, prefere sentir cada segundo sendo marcado na pele. Talvez seja esse meu eterno paradoxo e a minha dor que nunca vai passar: o tempo se esvai, mais lento do que eu consigo conceber e muito mais rápido do que eu posso acompanhar.
terça-feira, julho 26, 2011
Acabou o cd, e ela saiu em busca de outro desesperadamente, antes que desse tempo de ouvir sua própria loucura. Vozes bonitas alheias sempre escamoteiam a verdadeira voz, aquela que vem da dor. Se não dói, não vem o grito, tinha dito um amigo. E é preciso gritar, ela sabia, mas preferia acreditar no silêncio; não no dela, já que havia perdido o controle sobre o que dizia já há muito tempo. Quem sempre falou foi a sua loucura, tão sádica, tão masoquista, tão charmosa; o que elas tinham de mais bonito era que se odiavam e não podiam conviver em paz. Preferia acreditar no silêncio e antes que desmanchasse o sorriso em grito, parou.
Respirou fundo, desabotoou a camisa nova até a altura do soutien. Estalou o pescoço para um lado, estalou para outro, deu um suspiro de saudade e outro de tesão. Passou o batom que combinava perfeitamente com a pele dele, último recanto do vermelho e sorriu. Do espelho, a loucura sorria de volta, ela sabia quando ganhava uma discussão e era do tipo gentil, não saia por aí cantando vitória, reservava suas vinganças diárias para momentos pontuais: tapas, arranhões, gritos, mordidas. Ai era a loucura que falava, ai só essa voz se ouvia. Olhou para baixo, da altura do salto que usava se caísse perderia a consciência. Riu para si mesma: que consciência?
quinta-feira, julho 21, 2011
Sentir saudade de uma coisa que não volta, pelo menos não agora, beira o insuportável. Hoje, eu sou mais calma, hoje eu consigo entender que a saudade não tem cura quando o amor é grande demais. Ainda prefiro evitar todas as coisas que me lembram você, dói menos, ainda que seja completamente covarde.Talvez você tenha sido pra mim a forma mais pura de saudade, porque é a forma mais pura de amor e de respeito. Mas esses dias eu ando me sentindo tão pouco pura, sabe? Acho que de onde você me olha, você consegue ver o vulcão que ferve dentro de mim, dia a dia. Eu tenho uma memória ótima para números, mas não consigo me lembrar, de maneira alguma, de quem eu era. Você se lembra? Meus amigos sempre me dizem que eu fui diferente. Uns gostam como eu era antes, outros preferem agora. Parei de usar o batom vermelho por uns tempos, dizem que tá na moda. Mas não muda o vermelho que tá por dentro, que me inunda, me pinta. Ouvi dizer que crise é mudança de realidade, que é importante, e que nunca se supera. Crises não são superáveis, aceita-se a mudança e convive-se, bem ou mal, com ela. A minha realidade é outra e eu não posso resgatar o que eu fui, nem com fotos, nem com festas, nem com falsos momentos. Mas eu continuo tentando. Todo dia eu mudo um pouco, às vezes parece que estão me tirando o oxigênio gradativamente e quando eu acho que vou morrer sufocada, eu surpreendo, a mim e a todos, e continuo respirando com o mínimo que eu tenho. É isso, eu fico me contentando com um pouco de ar, sem perceber que eu não preciso de um balão de oxigênio novo, eu preciso mesmo é voltar pra superfície e respirar o tempo que eu achar necessário, morrendo de saudade das minhas roupas velhas, dos meus velhos amigos, do meu antigo fígado, bem mais resistente: mas não de mim. Comigo eu quero continuar. O resto da vida.
terça-feira, julho 19, 2011
Eu que já não quero mais ser um vencedor...
Poucas coisas não me irritam, mas aprendi a lidar com isso, de uma maneira ou de outra. Eu consigo, efetivamente, lidar com as coisas irritantes, o que eu não consigo é fazer com que elas não percebam minha cara de tédio. Mas em relação as coisas irritantes, algumas em especial atingem regiões minhas onde o ódio se aconchega e, quando despertado, tende a se rebelar. Não que eu não seja uma pessoa calma na maior parte do tempo. Calma e egocêntrica, nem quando quero falar de coisas que me incomodam consigo parar de falar de mim. Talvez eu me incomode a mim mesma, mas tem coisas irreparáveis nessa vida.
Voltando pela terceira e última vez às coisas que irritam, tenho sérios problemas com burocracia, dinâmica em grupo e palestras de incentivo e auto-ajuda. Pior é quando a burocracia me impõe uma dinâmica em grupo com palestra de incentivo e auto-ajuda. É triste porque a burocracia tem poder e ele me sucumbe. Respirei, participando com a menor cara de tédio possível, assisti a tal palestra. "10 passos para ser um vencedor": vencer a quem ou quê?; vencer pra quê?, quem disse que eu quero vencer alguma coisa?" foram as três perguntas que eu me fiz quando vi o que seria obrigada a assistir. Continuei quieta, afinal, essa coisa de contestar não deve ser atitude de um vencedor.
Descobri, nessa palestra, que eu nunca serei uma vencedora. Não combina comigo, de qualquer maneira. As lágrimas, o whisky e o batom borrado da derrota fazem mais meu tipo, eu sempre soube. A questão é que eu tenho muita sorte e quanto mais eu erro, mais as coisas dão certo pra mim.
E eu voltei a falar de mim. Todo mundo busca se conhecer, se entender. Essa sou eu: o resultado dos meus erros que sempre coincidem com as minhas escolhas. Eu só erro, mundo. Desculpem todos os espinhos, é que tanta preguiça eu tenho de pensar em mim, em mudar. Então eu lembro de novo de um dos 10 passos: seja uma pessoa intensa para ser vencedora. Erro, erro, erro. Pobre palestrante que ganha litros de dinheiro para não saber o que está falando. Desde que eu me conheço por gente meus maiores erros tinham sempre uma causa em comum: a intensidade. Quantos pessoas ainda vão me lembrar disso? Quantas pessoas eu ainda vou machucar por ser assim? Quantas vezes eu vou me machucar tentando me segurar e explodindo logo em seguida? E eu não vou vencer assim, nem quero. Coisa chata essa de vencer: o dia de comemoração é um só, enquanto na derrota eu posso curtir meu lado perdedor, regada a uma boa bebida, todos os dias.
segunda-feira, junho 20, 2011
de mim
Eu ando com saudade de mim e dói de uma maneira permanente e contida: não sinto que vou explodir, não, mas essa saudade nunca passa. Goteja, igualzinha a torneira da cozinha: e eu sempre acho que só pra me irritar. Não que essa que eu sou hoje não seja exatamente aquela que eu planejei ser. Chegamos no ponto que eu nunca quis chegar: adoro ser tal qual eu sou e fazer da maneira com que faço e é isso que me irrita. Lembrei-me daquele desenho que ficava no quarto bagunçado da antiga república, que dizia, em espanhol: Cuidado com que desejas, que o universo te concede. Que delícia: não nego que há pelo menos quatro anos consigo tudo que desejo com vontade extrema. Acontece que depois, e só depois, eu paro para tentar entender até quanto do meu desejo é suportável pelos meus próprios ombros. Não é, nunca será. Porque do mesmo jeito que eu como um pedaço de pizza a mais do que eu aguento, eu desejo mais do que realmente quero. Pode ser ganância, pode ser ansiedade, pode ser gula de comer a vida com todos os temperos que ela me permitir. E eu reinvento a mim mesma: tenho saudade de quem nunca fui. Já tive menos trabalho, mais tempo, menos whisky e mais cerveja, mas eu sempre fui desse mesmo modo. Que erro! Porque eu mudo os cabelos, os sapatos e troco a cor do batom, posso até fazer reeducação alimentar e parar de comer tanto queijo, mas essa fome de mundo nunca passa e eu vou continuar mastigando meus próprios dias, transformando-os em noites extensas e sonos escassos, só para ter a certeza que tudo que podia ser meu de fato foi. Nem que depois passe. Ainda que depois eu vomite...
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