terça-feira, julho 26, 2011

Acabou o cd, e ela saiu em busca de outro desesperadamente, antes que desse tempo de ouvir sua própria loucura. Vozes bonitas alheias sempre escamoteiam a verdadeira voz, aquela que vem da dor. Se não dói, não vem o grito, tinha dito um amigo. E é preciso gritar, ela sabia, mas preferia acreditar no silêncio; não no dela, já que havia perdido o controle sobre o que dizia já há muito tempo. Quem sempre falou foi a sua loucura, tão sádica, tão masoquista, tão charmosa; o que elas tinham de mais bonito era que se odiavam e não podiam conviver em paz. Preferia acreditar no silêncio e antes que desmanchasse o sorriso em grito, parou.
Respirou fundo, desabotoou a camisa nova até a altura do soutien. Estalou o pescoço para um lado, estalou para outro, deu um suspiro de saudade e outro de tesão. Passou o batom que combinava perfeitamente com a pele dele, último recanto do vermelho e sorriu. Do espelho, a loucura sorria de volta, ela sabia quando ganhava uma discussão e era do tipo gentil, não saia por aí cantando vitória, reservava suas vinganças diárias para momentos pontuais: tapas, arranhões, gritos, mordidas. Ai era a loucura que falava, ai só essa voz se ouvia. Olhou para  baixo, da altura do salto que usava se caísse perderia a consciência. Riu para si mesma: que consciência?

3 comentários:

B. Belmonte disse...

É a femme fatale. Camisa desabotoada até a descoberta do colo, armada do arsenal que a natureza lhe preparou com tanto cuidado e tanta injustiça: tapas, arranhões, gritos e mordidas. Injustiça, devo dizer, para nós, homens, que quando nos estapeamos e nos arranhamos e gritamos e mordemos, parece então que alguém deu vida ao ser mais abjeto que a terra já pôde cuspir em sua própria face. Um homem, quando usa as unhas e os dentes, e faz isso em meio a tapas, com um grito retinindo nervoso na orelha de quem passa e então quer fugir; esse homem só pode ser um idiota.
Mas uma mulher, quando a vemos agir assim, ao que está do lado dizemos: "Oh, como está bela! Oh, que nunca esteve mais bela! Oh, que beleza!"

Mayara Almeida disse...

Per-fei-to.

gipicles disse...

Mulher em carne viva. Adorei esse!