quinta-feira, abril 10, 2008

à Val, minha mulher...



Eram cinco da manhã, você não queria viajar. Chegar lá cansada, já na hora da aula, ai que preguiça. Não podia esquecer de por o brinco. Aquele de pena, sua amiga te deu, lembra? Amiga... era como se fosse irmã, como se fosse você mesma. Aquele brinco, que nem era caro, era como se fosse um presente seu pra você mesma. Você colocou o brinco, era mais fácil viajar usando ele.
Tantas horas de viagem, e eu sei que você consegue dormir, na hora nem sente, mas da um cansaço, né?
Você dormiu, virou pro lado da janela que era pra não sentir o cheiro de cigarro do moço ao lado. Afinal, cigarro de dia fede e dá nojo e você, senhora hipocrisia, só fuma de noite. O brinco, do lado direito, o mesmo que você se virou.
Dormiu.

Acorda, menina, você já ta na rodoviária. Cara amassada, meu deus como é quente essa cidade. Ajeita o cabelo que nunca se ajeita. Pronto. Eita, onde ta o brinco?
Não ta na cadeira, não ta no chão, nem no banco ao lado.

-Minha senhora, o motorista pediu que a senhora se retirasse.

Desespera. Procura, vai, você consegue achar. Olha no banco da frente, no corredor. Aquele filho-da-puta-fumante-fedido que tava do seu lado. Certeza que ele levou o brinco.
Como vai se olhar no espelho de novo? Você perdeu o presente. O presente que eu você deu a si mesma...
Desespera, mulher, desespera.

-Minha senhora o ônibus tem que partir, faça a gentileza de descer?

DESESPERA!

Moço, vê se entende, ela perdeu o brinco, não é fácil, ta?

-Minha senhora, era algo de valor?

Muito, muito valor. E ela perde e você nem entende. Vai, menina: desespera.

-Se a senhora me disser o que é, posso ajudá-la.

Ajuda-la, sim. Com você ai, só lhe resta desesperar..

Um brinco de pena, várias peninhas azuis, verdes, da cor dos olhos dela. Acha pra ela moço, ou ela surta. Apesar de que ela devia mesmo era desesperar.

-Um brinco de pena? E era de valor? Bom, volte aqui amanhã e procure na sessão dos achados e perdidos.

Ninguém devolveria aquele brinco, ta na cara dele que ele é diferente. Logo, desespera.

Sem brinco, a cara se não ta mais amassada agora ta vermelha. Cara de quem chorou.
Agora ele te liga, pergunta se você ta melhor do resfriado do final de semana.

3 chamadas perdidas.

Ai, como ele te ama.

Mãe, pai, 144.

Sua mãe ligou pra falar que seu pai vai ligar avisando que a operadora vai ligar dizendo que vai cancelar seu número.

Genial. Ele não te ama. Vai, menina, desespera.

Moço, o preço do metrô subiu? Meu deus, agora é doisevinteecinco e ela só tem doisevinte. Moço, deixa ela passar, coitada. Nota de cinqüenta aceita? Aceita, vai, moço.

Cobrador filho-da-puta. Aposto que fuma de dia. Não se pode confiar em quem fuma de dia. Se você ao menos tivesse com o seu brinco...

Desespera. Pode desesperar que é a única coisa que resta. Des-espera, mesmo. Que esperar que o mundo entenda, mulher, é tempo que esvai...

5 comentários:

Guto Leite disse...

Conto cadente feio pedra do céu. Você escreve com sangue, parceira, já disse, gosto disso! Grande beijo!

Carolina disse...

tão gostoso de ler! =)

Fabi disse...

Super seu, super taurino. E eu adorei =)

Bi-toca de quem é desesperadatudojunto por você. ;*

K.C disse...

resolvi postar antes de dar meia noite, porém prefiri te ler ainda antes, e depois disso resolvi não postar. Senti q precisava de idéias novas perto disso tudo que eu li.
Algo que chamo de sinestérico, talvez.

Anônimo disse...

bom comeco