domingo, março 09, 2008

Prefira o desprezo.
Essa coisa de que o pior dos tormentos é a indiferença é balela, meu senhor.
Prefira a indiferença.

Porque é essa coisa de ódio incomoda, dá trabalho. Ai, ficar odiando dá uma canseira que só vendo. Foi aí que eu desisti de odiar. Porque odiar implicava em me fazer pensar no ser odiado e isso dava uma preguiça; porque eu não sabia mais porque odiava, já que nada me incomodava, já que nada eu lembrava. Era como se ele nunca tivesse existido. A indiferença bateu em mim que nem batesse uma varinha mágica, sabe? Parei, numa bonita tarde de verão quente, de odiar.

E amar? Ai, nem me fale. Amar suga as energias. Ontem mesmo nem consegui trabalhar de tanto que eu amava. Vê só: eu tinha quatro livros pra ler, e que foi que eu fiz? fiquei sorrindo, olhando pro teto e pensando no desgraçado. Cansei tanto que acabei dormindo. Não, o pior que sequer deu pra relaxar com esse sono, o filho-da-mãe me persegue até dormindo. Acordei exausta de tanto amar. Isso, te digo, porque ele tá longe. Imagine o senhor quando ele tá perto. Não durmo, nem quando ele dorme. Que é de amor ficar acordada vendo o sono dele. Não como, não bebo, quié porque ele mata minha sede e minha fome. Ai, o amor. L´amour, monsieur. Destrói. Por que que eu fui amar, meu senhor? Sabe-se-lá. Acho que foi a inteligência dele que fez isso comigo. Ele é ótimo. Descobriu antes de mim, antes de você, quiça antes da humanidade inteira que o melhor caminho é a indiferença. Ele fica intacto e tira de mim o que precisa pra viver; a minha energia.

Por isso, aqui, meio sabida da vida te digo, senhor, que me escute. Pois eu reitero: prefira o desprezo.

6 comentários:

Carolina disse...

prefira, não, moça.

a gente leva tapa na cara, mas eu sei que a gente agüenta!

adorei, sabe?

Anônimo disse...

Indiferença é máscara, é ilusão, não existe. Aliás eu imagino que do lado de ser tão "amante" seja impossivel se petrificar. Creio eu que tudo não passa de fachada, de um rosto canalha que não responde aos tormentos da mente, adota o blazé e a inutilidade, mas não por opção mas por não ter mais energias para se prostar de outra forma. Digo isso por que o único jeito de alguem ser tão destituido de senso e razão a ponto de dormir enquanto o seus olhos velam é sinal claro do seu estado de esgotamento.

Você crê que ele permanece intacto mas imagino que por trás desta casca futil ele é pó, se tornou pó, se secou pra manter o seu amor, se desidratou pra matar sua sede, se exterminou internamente para mante-la viva, e sempre viva como um ser do seu poder de amor deve existir.

Mas ele é homen, demasiadamente homen, e então padece em seus braços, transfigura-se enquanto olha alegremente ao ver você assim - tão você. Ele doa o que tem e não tem, e assim definha por ti. Mas isso não é morte, já que viver sem você seja a pior das mortes, e assim isso que aos olhos dos desavisados aparenta ser um suicidio é sim seu clamor pela vida, seu grito por você.

...pelo menos isso que eu diria à narradora. [e sim acentos são opcionais]

K.C disse...

e as vezes a gente tenta usar da mesma indiferença...soa sempre como algo desprezível aos proprios olhos.



gostei muito

aini disse...

tu já assistiu/leu Eu sei que vou te amar? é do Jabor, 1986, tal.
É que tem horas que tu escreve, certas palavras, certas entonações romântica-revoltosas que me lembram muito a Fernanda Torres falando no filme.
Se não conhece tenta. No orkut tem uma comu com trechos.

ah, e texto muito bom, de novo!

Guto Leite disse...

Eu e você, parceira, não me iluda, somos do partido do abraço e dos litros de sangue! Grande beijo de alma!

Laiza Machado disse...

'dorei demais menina. Demais.