quarta-feira, janeiro 16, 2008

É tudo uma questão costume. E de educação, é claro. ‘não sente assim, minha filha, vai aparecer sua calcinha’. ‘respeite os mais velhos, menina’. ‘não fale de boca cheio que é muito feio’. E assim foi indo. Ela sempre obedecendo ao que mandavam. Sempre, nunca trouxera qualquer desgosto para a mãe. Seu orgulho aquela garota linda. Nessa de respeitar os mais velhos nunca contou pra ninguém que o tio-avô pedia pra ver se os seus peitinhos tinham crescido. Ela deixava, já que ele era mais velho. No começo não gostava, tinha nojo, mas depois se acostumou. Quando ainda tinha 8 anos, se apaixonou pelo primo, que tinha 9. Eles iam casar, ele prometeu. Mas a mãe ficou com medo deles brincarem muito de médico e separou os dois. Ela chorou, sofreu, mas não reclamou com a mãe. Ela se acostumou, como sempre se acostuma. É tudo questão de costume. Ela quis aprender a tocar violão, mas se acostumou com a idéia da mãe de que isso era coisa de homem. Aos 15, tão linda, ela se arranjou um namoradinho. Ele dava tudo que Ela precisava: bombom, estalinhos na boca e flores coloridas. Mas a mãe achou que ela podia dar demais em troca e os separou. Ela sofreu, coitada. Achou que ia morrer de tristeza, mas se acostumou a ficar sem ele... afinal, é tudo questão de costume, minha filha. Ela se acostumava com tudo. Dor, agonia, chateação. O problema mesmo era o tédio. Quando ficava entediada a menina não se acostumava. Tinha vontade de gritar, Ela se sentia presa e chorava, chorava, chorava. Um dia a mãe disse que batom vermelho era coisa de vadia. Mas Ela não entendeu por que é que a mãe tinha aquele batom vermelho na gaveta. Num dia desses de tédio, passou o batom. E ela se encheu toda de alegria. Sentiu que era mais bonita, e que era fácil se acostumar com aquele batom. Mas a mãe viu, bateu na menina, deixou ela toda marcada, com gosto de batom e lágrima. No fim, ela se acostumou com a boca sem cor. Um dia a mãe foi jantar e deixou Ela sozinha em casa. Acabou a luz, e quando estava quase se acostumando com o escuro um tédio doído tomou conta na casa; fazendo com que os móveis ganhassem vida junto com a menina, sempre tão apática. Ela conseguiu uma vela, achou o batom vermelho. Se pintou toda e saiu pela rua que só contava nessa hora com a luz da lua.

Carros, um a um, paravam. Mas ela negava, com a satisfação que não entendia de onde vinha. Até que começou a ficar tediosa toda aquela negação e ela resolveu aceitar. Um senhor de idade...tanto lembrava seu tio-avô. E ele enchia Ela de dinheiro. E Ela ficava quieta. Sentava direito e não falava com a boca cheia, igualzinho a mãe ensinou. O velho era meio louco, mas era mais velho que ela, então ela obedecia, até quando não podia mais. Depois de ter feito tudo como haviam sempre lhe ensinado, saiu pela rua. Sentia-se tão bem que queria tocar violão. Deitou na calçada e disse que não voltaria mais. Talvez sofressem com sua falta um dia. Mas no fim, é mesmo tudo uma questão de costume.

2 comentários:

B disse...

E assim, o leitor se liberta junto com a menina para então ser mulher de sua vida. Com essa liberdade doce como o fel.

Livres porem fudidos, que pelo menos seja bem fudidos...

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Lindo como a autora.
bjos muitos

bruno mendes disse...

massa