domingo, julho 12, 2009

Quando Fabiano nasceu não chorou, não reclamou, não deu trabalho nenhum. O pai, que era fotógrafo de céu viu nos olhos pequenininhos de Fabiano um brilho bem maior do que da Lua, quando ela fazia pose no céu pra ser fotografada. Fabiano era quieto feito estrela.
Margarida nasceu gritando, destruindo os movéis da casa, falando sem parar e imitando artista de cinema. Queria ser escritora e quebrou a máquina de escrever do avô. Não tinha cuidado com nada, mas também não precisava que cuidassem dela. Margarida tinha a boca cor de morango, sua fruta predileta, e nos olhos não tinha nada, porque o pai não era fotógrafo de céu, era só desenhista de flor.
Quando Fabiano cresceu continuou carregando nos olhos o brilho da Lua que o pai fotografava e o jeito de estrela. Margarida continuou falando sem parar e quebrando as coisas que passavam por ai. De tanto quebrá-las, Margarida foi se machucando. As mãos, as pernas, os pés, o coração ia todo cortado ao longo da vida. Margarida é fraca, porque flor não aguenta ventania, enquanto estrela ri da cara da brisa.
Margarida quando viu Fabiano reconheceu na hora aquele jeito de estrela, quieta. Dava o que tinha pra brincar de ser céu, e segurar Fabiano num abraço. Mas Margarida não era céu, tinha nascido de um desenhista de flor, e só flor podia ser. Margarida não tinha tato para cuidar de estrela, desde criança quebrava tudo, estragava o que mais gostava. Mas flor, no fim, é flor: tem espinho e murcha rápido. Enquanto estrela brilha, brilha, e quando a gente já dormiu e acordou uma vida, ela brilha.
Margarida não merece Fabiano. Não pode ficar do lado dele muito tempo, porque a primavera passa, a flor enfeia enquanto o céu continua ali. quietinho. Margarida queria dizer pra ele que sabe que ele é estrela igual a que o pai dele fotografa, queria dizer que precisa dele mas que entende que flor e estrela não terminam juntos e não se dão bem. Flor tem medo, estrela assusta. Ela queria explicar. Queria, mas ficou quieta, porque flor quebra com o vento, e anda ventando demais por aí...

Um comentário:

Carolina Bataier disse...

uma graça (: