sábado, junho 06, 2009

Eles definitivamente não tinham nada ver. Ele lia Bernardo Soares enquanto ela gostava bem mais do Caeiro. Passavam horas discutindo qual era o melhor heterônimo, mas só chegavam a conclusão de que, no fim das contas, era o Fernando Pessoa que era mesmo muito bom. Fernandinho, ele dizia. Ela imitava essa intimidade, achava graça no jeito dele brincalhão. Ela nunca conseguiu ser engraçada, mas levava jeito para sorrir, não era difícil arrancar um sorriso da cara dela, ainda mais se era ele tentando. Mas, repito, eles definitivamente não tinham nada a ver. Ela queria passar o fim-de-semana na praia enquanto ele reclamava que não fazia frio. Ela pensava no Tejo, no rio que não corre na aldeia dela e queria uma água, queria sentir. Ele pensando numa sociedade amarga, em uma geração difícil. Ela tentou todos os jeitos de misturar os sentidos dele, confundir tudo, violar, ela queria ele em sinestesia, e ele explicando, claramente, as razões, os modos, os porquês, os motivos. Ela queria ser fraca, ficar no colo dele, pedir para ele cuidar, mas ele queria ela forte, não deixava ela se encostar levantava e dizia: “Anda”. Ela andava, rumo a qualquer coisa, só para parecer forte. Ele achava que não a conhecia, “você é um heterônimo, também, enquanto eu sou só uma voz diferente de um mesmo homem”. Mal sabia ele que ela, desconhecida, tinha muito pouco para dizer além do que sentia… Ela parece que vai entrar no mundo dele, sentir o cheiro que ele sente, olhar pelos olhos dele e ver como é tocar quando as mãos são as mãos que você procura. Ele tenta usar a lógica dela, e vai num labirinto de pensamentos onde ele vê um reflexo dele mesmo. “Ela quer pensar como eu”. Foge, filho da sociedade, foge você que teu desejo é fugir. Ilude, menina das sensações porque os teus sentidos são ilusão. Você não vai conseguir explicar o que sente. Ele não vai conseguir sentir o que explica. Separados são duas grandes vozes de um mesmo desejo. Juntos, uma obra completa.

2 comentários:

E vem a Ana... disse...

"e ver como é tocar quando as mãos são as mãos que você procura"... Só Deus sabe! Só Deus!

Quincas Borba disse...

clap clap clap