domingo, maio 10, 2009

Sete anos juntos e ela nunca se lembra. Ela devia se lembrar, não é? Ela é a mulher. Mulher é que se apega a essa coisa de data, de lembrança. Mas não. A gente é tão diferente. Eu sou um homem sério, sabe? Um homem ocupado, que devia receber ligações as seis e quinze da mulher preocupada e um pouco enciumada dizendo ‘é para eu te esperar para o jantar?’. Mas ela nunca me ligou, e eu já me atrasei, juro. Um dia cheguei quase as sete e meia em casa! E ela? Ela nada. Nunca teve ciúme, nunca duvidou de mim. ‘Quem ama, cuida’, minha mãe me disse a vida inteira. Um dia quis dizer isso para a minha mulher e sabe o que ela me disse? Que ciúme é socialmente construído, por uma sociedade patriarcal e machista. Eu nem sei o que é uma coisa socialmente construída e ela adora repetir isso. Ela diz que arrozefeijão é socialmente construído, até a gente ter uma samambaia na varando ela acha socialmente construído. Eu não digo nada, ela pode achar que meu silêncio é socialmente construído, mas eu sinto que…Bom, não importa. Eu gosto da samambaia na varanda.
Quando nosso baixinho nasceu era perto do dia das mães e eu tava ansioso para dar para ela o primeiro presente de mãe. Não ia dar uma coisa dessas que a tv manda comprar porque ela ia dizer que não era dona de casa e não tinha vocação para Amélia. Comprei um perfume, desses que a gente sente com todos os sentidos. Eu sei que ela gostou porque ela passa todo dia, mas só por isso. Quando eu cheguei com o presente, ela disse que dias das mães é data comercial e que eu tinha caído na lógica capitalista. Aquele dia me deu vontade de dizer para ela que a minha lógica capitalista pagava as fraldas descartáveis do pequeno. Duvido que ela ia querer lavar fraldas de pano em prol do meio ambiente. Mas eu gosto dela, sabe? E quando a gente gosta fica quieto mesmo quando dói. Hoje eu sei que não devia ficar quieto, mas é que ela sorri de um jeito que a lógica capitalista e o socialmente construído começa até a fazer sentido…
Mas hoje me rebelei. Sete anos juntos e ela não lembrou. Eu só queria um carinho, sabe? Um bilhete no espelho do banheiro, pintado de batom vermelho, aquele que ela passa para ir trabalhar. Ou um e-mail chegando no escritória. Ou um telefonema. Uma sms, um sinal de fumaça. Ou um sorriso… Mas ela acha que casamento é uma instituição que tende ao fracasso.
Comprei essas flores, tão vendo como são bonitas? Vou dar para ela, ela vai dizer que eu não devia gastar dinheiro com essas bobeiras, vai me dar um beijo frio, e vai perguntar porque comprei isso…
Quer saber? Vou dar essas flores para outra, vou comemorar meus sete anos sete anos sozinho. Sete anos socialmente construídos.
…mas eu não tenho força.
Oi, amor. Feliz sete anos de casados. Essas flores são para você!
‘Marcelo, já não disse para não gastar dinheiro com essas coisas? Sete anos de casado? Isso é socialmente construído pela lógica capitalista! Você não aprende nunca!!!’
Eu aprendo, amor…Olha, vou buscar uma coisa que deixei no escritório e já volto.

Sete anos. Oi, qual seu nome? Eu quero te levar para jantar comigo. Por que? Hoje eu quero comemorar uma data especial. Pede o vinho mais caro…

2 comentários:

Quincas Borba disse...

O Marcelo casou com uma garota do pstu ou do psol?

Quincas Borba disse...

...ou uma cientista social?